Convidamos a mãe e Psicóloga Clínica, especialista em psicoterapia Priscila Toscano de Oliveira Marchiolli para falar de adoção. Você não pode perder!

Quando analisamos os dados referentes às crianças em espera por uma adoção no Brasil em comparação com o número de candidatos a pais adotantes, nota-se, de imediato, que algo não se encaixa. Parece que a conta não fecha. Afinal, segundo informações mais recentes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), há no Brasil hoje, aproximadamente, 5.600 crianças aptas para adoção.

Isso significa que elas estão em abrigos sob a custódia do Poder Público, aguardando serem recebidas por uma família que as ame e cuide de seu bem-estar e desenvolvimento. Em contrapartida, existem na fila do Cadastro Nacional da Adoção, atualmente, em torno de 33.600 registros, isto é, casais ou pessoas sozinhas que já passaram pelo processo de seleção exigido por lei para estar apto a adotar e que estão agora habilitadas, à espera de seus filhos.

De fato, o dado em si aponta para um cenário de soluções, certo? Com um possível futuro sem crianças em abrigos. Que imagem encantadora! No entanto, há que se olhar um pouco mais a fundo. O que há nessa distância de números? Afinal, o que as duas partes buscam é o mesmo, a experiência em família.

Adoção no Brasil

É preciso, para entendermos o universo da adoção, especialmente no Brasil, que se considere o elemento subjetivo envolvido no gesto de quem adota: no imaginário da grande maioria das pessoas que estão em busca de uma criança há o desenho de um filho ‘ideal’, projetado de acordo com os anseios dos futuros pais. Sonhar, no sentido de desejar, é um movimento natural do humano, projetar-se no futuro, ainda mais quando o assunto é a tão sonhada realização paterna ou materna.

Mas acredito que precisamos, como grupo social, olhar para esse aspecto mais de perto e com muito carinho, uma vez que a pura projeção dos desejos no futuro filho, ou ainda, crenças que carregamos sobre o que significa ser mãe ou pai acabam, a meu ver, afastando as pessoas da vivência do real, com suas delícias e também dificuldades. Isso porque a maioria dos adotantes espera receber no seio de sua família um recém-nascido de cor branca.

A questão é que apenas 6% das crianças aptas para adoção têm menos de um ano de idade; a grande maioria (87,42%), têm mais de cinco anos e apenas 11% dos candidatos a pais mostram-se disponíveis para esta faixa etária. Outro ponto importante é a questão racial: 67,8% das crianças são negras ou pardas, porém 26,33% dos candidatos demonstram preferência por crianças brancas.

A Busca

A busca por esse perfil específico conta de uma necessidade de quem adota, de vivenciar todas as etapas do desenvolvimento de uma criança, podendo vê-la crescer sob seus cuidados e recebendo seu legado para a vida. Ela conta, também, da necessidade de continuidade que o humano pode vir a expressar através do gesto de ter filhos. No entanto, ela também fala de uma crença: o poder que conferimos à genética enquanto linhagem, fazendo com que a criança maiorzinha, que já tem uma história para contar, fique incompatível com o desejo de começar uma família “do zero”, mas mais ainda, ela é incompatível porque “não se sabe de onde veio” ou porque pode ter o famoso “sangue ruim”, o que invariavelmente, na fantasia dos adultos adotantes, resultará em problemas e patologias futuras.

A questão, para mim, se apresenta da seguinte forma: a experiência da maternidade e paternidade não é, e nem nunca foi, ditada pelos liames biológicos. Se assim fosse, não teríamos mães e pais completamente desidentificados com seus filhos e com o próprio papel de mãe e pai, produzindo relações vazias ou traumáticas, que invariavelmente nós, psicólogos clínicos, encontramos no dia a dia de nosso trabalho. A ligação biológica, pura e simplesmente, é insuficiente, em termos de estruturação do sujeito, em termos de desenvolvimento afetivo. Há que ocorrer algo a mais. Podemos dizer que o vínculo biológico é uma plataforma de início de uma relação, mas sozinha não garante uma relação afetiva bem sucedida.

Costumo dizer em grupos e palestras que na base de toda relação afetiva há uma adoção. Adotar é o ato de assumir como seu algo que antes não era seu. Nesse sentido, uma mãe biológica precisa, necessariamente, adotar seu filho biológico, tomá-lo para si, no percurso que os dois vão traçando, tanto quanto uma mãe “adotiva” precisa adotar seu filho que não é biológico. Da mesma maneira, um marido “adota” uma esposa, um amigo “adota” o amigo para sua vida, etc.

Disponibilidade Afetiva

Claro que falo, aqui, de relações com teor diferente. No entanto, a prerrogativa é a mesma: é preciso que o humano entenda a dimensão de sua disponibilidade afetiva, compreendendo que maternidade e paternidade também são dessa terra. Aquele que está disponível para se entregar para essa vivência, poderá fazê-lo um tanto mais aberto para o filho ”real”, aquele que está lá, que se apresenta como é, não o dos sonhos. E essa vivência permeia o universo dos filhos biológicos e dos filhos adotivos, uma vez que nenhum filho é exatamente como seu pai ou mãe idealizou, tenha seu DNA, ou não.

Este humano que está disponível afetivamente consegue dialogar com seus sonhos e com o real ao mesmo tempo, ficando menos aberto a tentativas de encaixar o filho em idealizações. Ele também se permite encontros na vida que transpõem barreiras, como a do sangue, por exemplo, muito importante em muitos contextos, mas que inviabiliza, por diversas vezes, encontros engrandecedores e absolutamente incríveis. Estamos falando, portanto, de uma abertura para algo novo, para algo que, em princípio, não é meu, mas que pelo afeto, eu torno meu.

E, por essas grandezas da vida e do mundo das relações, aquele serzinho do outro lado também poderá fazer o mesmo processo, ou seja, assumirá aquele ser antes estranho como sendo seu. E isso é o que deveríamos chamar de família.

Priscila Toscano de Oliveira Marchiolli: Psicóloga Clínica, especialista em psicoterapia Psicodinâmica Winnicottiana, Mestre em Psicologia como Profissão e Ciência pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Supervisora Clínica e mãe da linda Julia, que não tem seu DNA, mas tem toda sua alma e coração!

Dados do texto foram retirados da Revista Carta Capital: “Para cada criança na fila de adoção há seis famílias interessadas”, de  Ingrid Matuoka, publicado em 08/06/2015  às 04h28.

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