Se você leu nosso post “Segundo Filho: Ter ou Não?” você não pode perder o post de hoje. Convidamos a mãe e psicóloga Beatriz de Andrade Sant’Anna para explorar um pouco mais essa decisão tão importante.

Dizem que mãe psicóloga fica analisando os filhos o tempo todo. Devo admitir que no meu caso isso é um pouco verdade. Como psicóloga clínica, neuropsicológica e mãe de dois tesouros, desde a minha segunda gravidez comecei a pesquisar o que faz os irmãos se darem bem. Cheguei a algumas conclusões que gostaria de compartilhar com vocês neste artigo.

Na cabeça dos pais: o que se ganha e o que se perde

Sejamos francos, o mais velho realmente perde. E perde muito, não há como negar. Ele ganhará mais ao longo do processo, mas o primeiro passo é constatar que sua rotina, seu espaço, seu colo e tudo o mais mudarão drasticamente. E tudo bem. É importante que nós como pais tenhamos esta noção e que estejamos mais flexíveis para birras, manhas e retrocessos. Não haverá aquele idílio da “Família Margarina” o tempo todo.

Por outro lado, o filho mais velho deixará de ter tantos olhos adultos ao seu redor. E cá entre nós, por mais que tentemos, é inevitável dar mais atenção do que é recomendável para aquela coisinha mais linda e que a gente tanto ama. E atenção demais faz mal. É muito amor que também vem acompanhado de altas expectativas e as crianças precisam da liberdade que só poucos olhos adultos e a companhia de seus pares podem fornecer. E aí com outro filho, nem que você queira muito se consegue dar toda aquela atenção. E é por isso que um dia o filho mais velho entenderá que não perdeu amor e atenção, mas sim ganhou mais alguém para amá-lo demais a vida toda.

Os irmãos ganharão a companhia um do outro, é claro. Mas também ganharão riquezas incomensuráveis, como aprender desde cedo a dividir, a negociar, a ceder, a dizer não, a se impor. Ele ganhará demais também no futuro: uma sensação de pertencimento difícil de encontrar em outro lugar.

Uma grande amiga que é a terceira de uma irmandade de quatro filhos compartilhou uma reflexão da qual nunca me esqueci. Ela me disse: “por mais que a gente brigue, eu não trocaria nenhum dos meus irmãos por uma viagem à Disney”.

Pronto, podemos dar aquele suspiro aliviado. Se nós como pais tivermos muito claro todas as vantagens em se ter um irmão, fica tudo mais fácil. Isso diz respeito ao nosso mindset como pais de dois ou mais filhos. Agora vamos às dicas práticas.

Como lidar com disputas entre irmãos

Esta minha pesquisa também identificou que um grande complicador é quando os pais se colocam como juízes nas disputas entre irmãos. Um avalista tão poderoso, dizendo quem está certo e quem está errado facilmente causa um sentimento de injustiça e desvalor nos filhos, que poderão seguir a vida tentando em vão conseguir a atenção, o respeito ou seja lá o que for dos pais.

Não estou dizendo que se deva ignorar as brigas e deixarem as crianças se virando sozinhas a todo o custo. Claro que não. Mas, na medida do possível, é muito interessante que elas tenham o máximo de autonomia para resolverem sozinhas seus conflitos. Os pais devem interferir apenas quando a negociação se tornar ineficaz.

Esta intervenção também pode ser feita de um jeitinho especial. É sempre importante fazer com que os dois lados sejam ouvidos. Não apenas os pais ouvirem, mas que os irmãos aos poucos aprendam a se comunicar, a dizerem do que não gostaram e a se colocarem de forma objetiva ao invés de agressiva.

Pra isso, o primeiro passo é muitas vezes irradiar o que os pequenos pensam, ou seja, perguntar o que incomodou e traduzir para o irmão. Com isso, você valida o incomodo e a insatisfação de ambos os lados, que vão crescendo com a noção de que serão sempre ouvidos e respeitados.

Se não der pra escapar da posição de “juiz” (e muitas vezes não dá mesmo), é importante colocar o limite também de um modo particular:

  • Fale sempre do comportamento e nunca de uma característica global da criança (por exemplo: “puxar o cabelo do seu irmão não é legal. Não gostamos disso” versus “você não é um irmão carinhoso”).
  • Atente para a noção temporal que emprega na hora da bronca (“você não pode se comportar como está fazendo agora” versus “você sempre faz isso”).
  • O que é bom deve ser uma característica interna e o que é ruim contextualizado (“você é um irmão tão gentil” versus “agora você está gritando porque está muito cansado. Depois que você dormir vai se sentir melhor”).

Preparando para a chegada do bebê

Outra possibilidade prática desde antes do irmãozinho chegar é fazer o mais velho participar ao máximo da preparação e dos cuidados do irmão. Inclua seu filho nas rotinas de cuidados do bebê, na arrumação do quartinho. Assim ele se sentirá importante e pertencendo àquela relação. Estará ganhando e não sendo excluído.

Respeite os limites de sua faixa etária, mas convide-o a ajudar no banho do bebê, na hora da troca. Proponha brincadeiras em conjunto. Aqui em casa o mais velho se diverte jogando a fralda da irmã no lixo e passando sabonete na barriga na hora do banho. Também adora ajudar a carregar o bebê-conforto na hora de passear.

Outra brincadeira que funciona muito bem é, ainda durante a gravidez, replicar os cuidados com o bebê através de brincadeiras com o mais velho. Aqui em casa tínhamos várias bonecas: dávamos banho, trocávamos a fralda, dávamos de mamar e enchíamos as bonecas de beijos e abraços. Desta forma, o mais velho vai sendo aos poucos apresentado à rotina futura de forma lúdica e paulatina.

Apresentando os irmãos

A hora da chegada do irmãozinho é um momento crucial. É o início da relação deles. A pedra fundamental. Pensei muito em como fazer. Levo o mais velho pra dormir no hospital? Se ficar em casa, quem fica com ele? É essencial que o bebê traga um presente?

Vou compartilhar com vocês como decidi no final das contas.

Garanti que sua rotina permanecesse o mais inalterada possível (continuou indo na escola, dormindo na sua cama, respeitando seus horários ao máximo) e que ele me visse todos os dias na maternidade. Os parentes se encarregaram de levar tantos presentes que ele mal conseguiu dar conta, estava achando tudo uma grande festa. Acredito que o mais importante neste momento tenha sido garantir o protagonismo do mais velho.

No dia de conhecer a irmã, eu tinha planejado que ela não estivesse no quarto, mas não foi possível (se for viável, eu recomendo que o bebê não esteja nessa hora). Então, primeiro meu mais velho chegou, matou suas saudades de mim e brincamos e conversamos um pouco junto. Depois, sem pressa, contei pra ele que a neném que estava na barriga agora estava naquele bercinho ali ao lado. E ai eles se conheceram se beijaram e se abraçaram. Foi emocionante. Talvez o momento mais lindo de toda a minha vida.

Psicóloga clínica e Neuropsicóloga (USP), Mestre em Ciências (UNIFESP), docente e em supervisora de terapia cognitivo-comportamental (CTC Veda).

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